A pior coisa que tem nem é ser traído, é achar que está sendo traído. Você pegou uma traição, é complicado, mas é normal. A pessoa explica que se apaixonou por outra. Ficar desconfiando é que é um inferno. Mas já fui traído, sim! Sexo sem amor é possível, real, e está valendo para o homem e para a mulher. Se a Júlia me dissesse que se envolveu com alguém só por sexo, não me separaria. Não existe mais mulher que fica em casa esperando o homem enquanto cozinha. Eu seguraria uma traição. Tenho maturidade suficiente para isso. E ninguém está livre de encontrar na rua uma ex-namorada que não via há muito tempo. Quem é casado não pode olhar? Se olhar, não pode sentir nada? Casamento aberto, às vezes, é uma opção.

 

Alexandre Borges
Ator, 45 anos, casado com a atriz Júlia Lemmertz, desabafando sobre traição, sexo e relacionamentos.
Agosto 2011

Foto: http://coisasdagigi.com



Imagine que João é casado com Maria. Levam uma vida agradável, juntamente com os três filhos que possuem. É inegável o amor que João sente por Maria e maior ainda o amor e respeito que Maria sente por João. Realmente, os dois se completam e são apaixonados um pelo outro. A vida de cada um é dedicada a fazer o outro mais feliz, sempre. E a vida da família transcorre em harmonia, em paz. Um belo dia Maria descobre que João, voltando de uma festa com os amigos, acabou passando alguns momentos na companhia de uma prostituta. Maria não se conformou com o ocorrido. Uma prostituta? Como isso? Maria resolve colocar um fim definitivo em sua relação com João. Começam brigas e mais brigas. As discussões são intermináveis. O lar que esbanjava harmonia se transformou num verdadeiro inferno. A vida dos filhos foi afetada, que sofreram muito com a situação. Maria dormia e acordava chorando. Por conta do fato que descobriu, sua vida que era um mar de rosas passou a ser uma selva de espinhos. Não se conformava com o fato de João ter "ficado" com uma prostituta. Em seu julgamento, se João fez isso é porque a odeia profundamente. Mais momentos dolorosos se sucederam. Maria procurou um advogado para formalizar o divórcio. Seguiram-se inúmeras audiências junto ao juiz da família. O processo de separação foi angustiante. Ocorreram inúmeras discussões sobre o direito de guarda dos filhos, que de um momento para outro presenciaram seu lar e sua família serem destruídos. Ocorreram brigas com relação à partilha dos bens do casal. As famílias de ambos foram envolvidas e, juntamente com o casal, passaram por sofrimentos e dissabores. Por conta de seu péssimo estado emocional, Maria foi despedida de seu emprego, no qual trabalhava há anos e se dava muito bem. João, por sua vez, do fundo de seu coração, continuava muito a amar Maria. Sem dúvida, ela foi e sempre continuará a ser a mulher de sua vida. Consumados todos os trâmites da separação do casal, tudo foi reiniciado na estaca zero. Maria passou a procurar outros homens e, mais do que havia se decepcionado com João, desapontou-se com todos eles. Passou a morar de favor no apartamento de uma amiga. Sua qualidade de vida caiu muito. Ocasionalmente se encontrava com seus filhos, cujas guardas foram concedidas ao pai. Ela, que tinha uma família estável e vivia feliz, agora está só, sem nada, vivendo da ajuda financeira que seus pais lhe concedem. Não é exagero dizer que sua vida virou um lixo...

Contaremos a mesma história acima, com um outro desfecho: Imagine que João é casado com Maria. Levam uma vida agradável, juntamente com os três filhos que possuem. É inegável o amor que João sente por Maria e maior ainda o amor e respeito que Maria sente por João. Realmente, os dois se completam e são apaixonados um pelo outro. A vida de cada um é dedicada a fazer o outro mais feliz, sempre. E a vida da família transcorre em harmonia, em paz. Um belo dia Maria descobre que João, voltando de uma festa com os amigos, acabou passando alguns momentos na companhia de uma prostituta. Maria conversa com João sobre o ocorrido. João se desculpa, lhe diz que foi um mero ato de momento e que em nenhum instante sentiu abalado o amor e a admiração que sente por ela. Maria entende que o ato foi simplesmente uma maneira de promover o consumo de uma eventual descarga hormonal de João e realmente percebe e valoriza o carinho que ele sente e continua sentindo por ela. Nem do nome da prostituta ele ainda se lembra. Decidiu não sacrificar toda a vida de uma família por conta de alguns minutos de entretenimento de seu marido. Gosta tanto dele que lhe dá o eventual direito de se divertir. Colocam uma pedra sobre o assunto e a vida da família continuou em sua plena normalidade. Continuaram felizes e fizeram seus filhos felizes. Nada mudou na vida dos dois, que continuou a transcorrer em plena harmonia. João se mostrava cada vez mais carinhoso e apaixonado. Maria procurava sempre dar o máximo de si. Sabia ela do amor de seu marido e compreendia a dissociação que foi ele capaz de fazer, não misturando uma eventual relação sexual com seus sentimentos de afeto. Percebeu que o amor e o carinho eram exclusividade dele para com ela e isso bastou para que tomasse sua decisão de compreender. Refletindo um pouco sobre as histórias, qual das duas Marias foi mais esperta? Qual das duas soube ponderar corretamente e garantir a manutenção de uma vida feliz e saudável? Embora muitas pessoas discordem e não aceitem a atitude tomada por Maria no segundo desfecho, não há dúvida que foi a decisão mais acertada possível. E Alexandre Borges sabe muito bem disso. Da mesma forma que um organismo humano pode eventualmente sentir necessidade de saborear um bombom ou um sorvete, pode também sentir necessidade de sexo. Você conseguiria passar o resto de sua vida apenas saboreando um sorvete de sabor morango ou sentiria-se impelido a experimentar outros sabores? Se por uma vez provasse um sorvete de sabor chocolate, isso indicaria que passou a odiar o sorvete de sabor morango?

Não vamos negar, o assunto "traição" é muito complexo e não pode ser resumido em simples histórias com desfechos opostos. Envolve muito mais coisas do que se possa relacionar em algumas meras linhas de texto. A própria palavra traição já é por si só uma palavra pesada, que significa a quebra de uma fidelidade prometida para outrém. Quando um homem chama uma mulher de "minha esposa", ou ela o chama de "meu marido", fica claro o sentimento de posse de um pelo outro. Se ela é "sua esposa", há de se convir que ela não deve ser de nenhum outro homem, mesmo que por alguns meros minutos. Se como disse Alexandre Borges, que não existe mais mulher que fica em casa esperando pelo homem enquanto cozinha, o que lhe confere o direito de se relacionar com outros unicamente por sexo e prazer, também ainda continuam sendo raros homens que aceitam que outros homens, tidos como concorrentes no plano social e reprodutivo, toquem e sintam o corpo de suas escolhidas. Ter uma mente aberta como a de Alexandre Borges não depende de querer, mas sim de compreender e aceitar um fato que já é realidade para milhões e milhões de casais em todo o mundo. Os tempos mudaram. Hoje em dia, aceitando ou não aceitando o fato, compreendendo-o ou não, é inegável que ele existe, visto que o ser humano tem necessidade de sentir prazer, e mais inegável ainda é o desejo que possui de sentir esse prazer com parceiros diferentes, sem envolvimento afetivo. Pode parecer inaceitável para muitos, mas é indiscutível que estamos vivendo numa era onde todas as pessoas buscam sua plena satisfação, seja mental, financeira, física ou meramente sexual. E foi-se a época em que uma aliança no dedo anular esquerdo conseguia reprimir desejos e vontades de uma pessoa. Para essas, a traição maior ocorre com elas mesmas, dentro de suas mentes, quando passam a restringir suas vidas, sacrificando-as em prol de uma tradição que para muitos já morreu. De acordo com o desabafo de Alexandre, quem é casado não pode olhar? Se olhar, não pode sentir nada? E se sentir algo, deve reprimir-se? O próprio fato de sentir desejo por alguém já não seria uma traição? Nesse exato instante, quantas e quantas pessoas casadas, em todas as partes do mundo, não estão se relacionando sexualmente com outras pessoas sem que seus pares saibam? E logo voltarão para casa, dormirão com seus cônjuges e a vida vai continuar. Você pode não aceitar o fato de forma nenhuma, pode nem deixar que essa idéia passe pela sua cabeça, mas pondere que sua esposa ou seu marido pode muito bem ter outros parceiros sexuais e você nem de longe desconfiar dessa realidade. Se acontece com bilhões de casais em todo mundo, por que não poderia acontecer com você? Finja que não sabe de nada, ou termine seu relacionamento ou faça como Alexandre Borges, abra sua mente e aceite o fato. (Obs: o autor desse texto continua sendo machão à moda antiga e não aceita de forma nenhuma que sua mulher, sequer por um segundo, pense em outro homem!).

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