Francamente, ninguém havia me perguntado sobre isso antes... Há muito preconceito contra nós. Mas quanto mais nós conversamos sobre o assunto, menos dramático ele se torna. Não deveria ser importante quem as pessoas escolhem para dormir ou passar a vida junto.

 

Anna Paquin
Atriz, que completa 29 anos neste mês, casada com o ator Stephen Moyer, desabafando sobre sua bissexualidade, somente assumida no ano passado.
Julho 2011

Foto: Bauer Griffin



Pensemos numa coisa delicada: uma taça de cristal. Pensemos agora em algo bruto, grosseiro: um tijolo de pedra. Vamos imaginar agora as duas taças de cristal, lado a lado, e os dois tijolos, também lado a lado. As duas taças de cristal, lado a lado, por si só formam um bonito conjunto, valorizado pela delicadeza e leveza das formas, com cada uma enaltecendo a beleza da outra. Os dois tijolos lado a lado nada possuem de beleza, com cada qual enaltecendo a feiúra, a falta de estética e harmonia do outro. Enfim, quando o belo se encontra com o belo, o resultado não é simplesmente a soma da beleza de um e de outro, mas cada um faz multiplicar as qualidades de seu par. Igualmente, o que é feio e sem harmonia tem suas más qualidades elevadas em potências quando se junta com outras coisas similares. Sem querer entrar no mérito social e filosófico da questão, o mesmo raciocínio pode ser aplicado com êxito para a bissexualidade feminina, que atualmente encontra respaldo em todas as sociedades desenvolvidas do planeta, muito embora ainda existam mentes restritas que veementemente não aceitam o fato, seja por convicções pessoais, religiosas ou simplesmente por não saberem considerar o sexo senão como um secular tabu que nem elas próprias entendem e sabem explicar.

Vale a essa altura diferenciar o bissexualismo feminino do homossexualismo, este último, de fato, podendo ser encarado como uma patologia, de acordo com o prisma sob o qual é observado. A mulher bissexual é uma mulher como qualquer outra, delicada, de comportamento social absolutamente normal, que sente atração por pessoas do sexo oposto, muitas vezes envolvida em sérios relacionamentos com elas, por vezes casada e com filhos, sem nada a dever para uma mulher heterossexual, em nenhum aspecto. A única diferença é que, diferentemente da mulher heterossexual, que somente sente atração por homens, a mulher bissexual também sente atração por outras mulheres e gosta de se relacionar com elas, sem por isso perder sua feminilidade e outros atributos inerentes ao sexo feminino. Já a mulher homossexual não gosta e não se relaciona com homens de maneira alguma, somente com outras mulheres, muitas vezes apresenta desvios de conduta, não tem feminilidade, comporta-se de maneira rústica, grosseira e não raro veste-se similarmente ao modo que um homem se veste. É como se fosse um homem dentro de um corpo geneticamente feminino. Seja uma pessoa bissexual ou homossexual, todas têm o direito absoluto de levarem sua vida da maneira que bem entenderem e não cabe a ninguém julgá-las, muito menos condená-las. Cada ser tem a suprema liberdade de escolha e de conduzir sua vida para o caminho que desejar.

Na vida real e no cotidiano, lidando-se com o tema da bissexualidade, infelizmente sabemos que as coisas não funcionam como deveriam funcionar. Tal como ocorre com Anna Paquin, mesmo estando ela em uma união heterossexual, ainda existe o preconceito. Isso é reflexo de uma sociedade atrasada, limitada mental e sexualmente, que somente consegue enxergar as coisas numa pré-determinada direção, sem capacidade de raciocinar de uma maneira mais ampla e coerente. Erro maior é tentar invadir a individualidade de cada pessoa e tentar impor a ela modos de conduta que somente encontram respaldo nas profundezas dessas tantas mentes retrógradas que infelizmente ainda estão entre nós. Como lidar com isso? É fácil. Quem disse que essas mentes atrasadas precisam saber de tudo que acontece com as outras pessoas?

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