Fernanda Montenegro - Foto: http://flocosemfoco.blogspot.com

Acho uma merda. Uma merda! E sempre me perguntam isso. E eu sempre dou a mesma resposta. Mas não consigo me livrar disso. Acho ridículo. É como se me tirassem de uma pessoa e me transformassem em uma personagem. Isso é uma bobagem imensa.

 

Fernanda Montenegro
Atriz, 82 anos, desabafando sobre o título de "dama do teatro brasileiro" que a ela foi atribuído.
Novembro 2011




O ser humano gosta, necessita e tem mania de classificar tudo o que encontra. Se existe algo que não tem nome ou que não pertence a nenhum grupo, logo é criado um nome para essa coisa e ela é classificada em alguma classe de coisas existentes ou criada uma nova classe para que tudo seja sistematicamente inserido em algum lugar. Nada pode ficar solto ou sem classificação. O inverso também é verdadeiro. Se existe algum espaço vazio dentro de um grupo, ou classe de coisas ou pessoas, logo alguém tratará de fazer com que esse espaço seja ocupado, de modo que jamais haja algum lugar vago ou coisa sem definição. E foi assim que aconteceu. Dentro da classe dos atores nacionais de teatro, havia o espaço vago de "dama do teatro". Quem deveria ser essa dama? O espaço não poderia jamais ficar vago e alguém deveria ser nele inserido, pois, como já foi dito, o ser humano tem essa necessidade de classificar tudo e todos. Pela própria definição, "dama do teatro" implica para que seja uma mulher mais velha, experiente, com vários anos dedicados aos palcos. Não se poderia atribuir esse título para alguma atriz estreante, de pouca idade. Não iria combinar. E não precisa-se pensar muito para que naturalmente se chegue ao nome de Fernanda Montenegro para ocupar esse posto. E foi exatamente assim que aconteceu. Havia o posto, havia a suposta necessidade de que esse posto fosse ocupado e, mesmo ela não gostando, foi escolhida para ocupar esse lugar. Não dependeu de nenhum tipo de opção que ela pudesse fazer, simplesmente atribuíram esse título a ela e o caso foi dado como encerrado. Não pergunte se ela gostou disso, está muito claro que não.

Um pouco desse comportamento vem também da necessidade da mídia de gerar notícia. A mídia precisa e tem fome diária de novas notícias, sejam quais forem. A imprensa gosta de associar pessoas à títulos, gosta de fazer comparações, gosta de sempre referenciar uma pessoa sobre a qual esteja comentando com algum fato ou nome que foi a ela atribuído. Ao mencionar o nome de alguém, sempre virá logo após esse nome algo fazendo alusão a alguma coisa relacionada a essa pessoa. Por exemplo, temos o fulano de tal que é gerente de uma empresa de laticínios, temos o sicrano que foi primeira pessoa a cruzar os oceanos num barco à vela, temos o beltrano que conseguiu dois milhões de visualizações no You Tube e temos a Fernanda Montenegro, que é a dama do teatro brasileiro. Percebeu? A imprensa, especialmente a escrita, sempre gosta de utilizar esses apostos. É raríssimo que, ao veicular uma notícia, o veículo de comunicação se refira a uma pessoa de uma forma crua, apenas mencionando o seu nome. Na grande maioria dos casos esse nome virá acompanhado de alguma coisa, seja título, função ou qualquer outra, que o qualifique de alguma forma. É assim que a imprensa trabalha e, convenhamos, fica muito mais fácil para quem recebe a notícia entender sobre quem se está noticiando. O problema começa a acontecer quando a pessoa referenciada não gosta do adjetivo que lhe atribuíram. Ninguém vai gostar de ser referenciado como o fulano de tal, que ficou preso durante quatro meses pelo assassinato de sua namorada. Apenas abrindo um parênteses, você pode ter estranhado, nesse exemplo, desse fulano ter ficado preso apenas quatro meses por um assassinato, mas a explicação é que ele foi julgado aqui no Brasil.

No caso da Fernanda Montenegro, não há muito o que ela possa fazer. A coisa funciona mais ou menos do modo que ocorre quando se coloca um apelido em alguém. Quanto mais esse alguém não gosta do apelido, quanto mais reclama e critica, mais facilmente o apelido "pega". E uma vez sedimentado esse apelido, é praticamente impossível que a pessoa consiga dele se livrar. O título de dama do teatro nacional até pode, de certa forma, suprimir a verdadeira personalidade da mulher Fernanda Montenegro, a pessoa em si dentro de sua individualidade, e mergulhá-la indefinidamente no papel de uma personagem, que ela não escolheu para representar. E quantos e quantos mais papéis melhores do que este ela representou? Por que então deixar marcado o seu nome com esse emblema? Isso, de certa forma, renega a um segundo plano toda a sua carreira no cinema e na televisão e os excelentes personagens para os quais ela deu vida. Isso dá a impressão de limitar a sua atuação somente para o teatro e, num raciocínio mais analítico, causa a impressão de que ela, durante sua carreira, apenas representou esse papel. Realmente, como ela própria desabafou, uma merda!

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