Uma vizinha manda um funcionário entrar dentro do meu jardim para arrumar o teto da casa dela. Eu já havia pedido uma autorização dela por escrito se responsabilizando pelos funcionários dela e ela não retornou. Tive que chamar a polícia. Que stress! As pessoas não valem nada mesmo. Só funcionam na porrada!

 

Letícia Birkheuer
Atriz, 32 anos, desabafando por conta de uma vizinha que mandou um funcionário entrar em seu jardim, para arrumar o teto de sua casa, mas sem se responsabilizar por ele.
Setembro 2011

Foto: André Freitas



Antigamente existiam dois sítios básicos de vida: a vida urbana e a vida rural. Continuam existindo ainda, cada qual com suas particularidades, mas hoje podemos incorporar a eles mais um: a vida digital. E claro, como todas as outras, ela também tem suas particularidades. Para qualquer local onde deseje uma pessoa persistir, haverá ela de conhecer, incondicionalmente, suas regras, suas normas e suas obrigações para com os outros. E claro, para todos esses locais onde se pode passar a vida, existe aquilo que é bom e aquilo que é ruim. Dizem que na vida urbana a pior coisa que existe chama-se "vizinho". Bem, Letícia Birkheuer deve saber bem disso. Pelo que ela desabafou, para que sua vizinha tenha possibilidade de consertar o teto da casa dela, precisa ela entrar dentro de sua propriedade. Até aí tudo relativamente aceitável, exceto pelo fato de que hoje em dia, nessa onda desenfreada de violência urbana, precisamos saber muito bem quem está entrando em nossa casa. Não podemos dar esse privilégio para qualquer pessoa. Nada mais natural do que Letícia, que está prestes a ter um filho, pedir para sua vizinha um termo assinado onde ela se responsabilizaria pelo funcionário que ela contratar, que terá de entrar em sua casa, mais especificamente em seu jardim. Sabe-se lá o que esse cara poderia fazer na casa de Letícia, afinal de contas, ela não o conhece. Pois bem, a tal vizinha manda o funcionário entrar na propriedade de Letícia sem fornecer esse termo requisitado por Letícia, ou seja, explicitamente sem a autorização de Letícia. Sabiamente e com toda a razão, Letícia chama a polícia. Como disse a própria Letícia, barraco armado!

Seja no dia-a-dia da vida urbana, rural ou digital, havendo mais de uma pessoa envolvida, sempre podem existir problemas que podem gerar entre as pessoas os mais diversos conflitos. Esses conflitos só possuem três maneiras de serem resolvidos, ou pelo menos para que seja tentada a sua resolução. A primeira maneira é através do diálogo, podendo ou não ser requisitada a presença da polícia, o que, se for o caso, sem sombra de dúvida, tornará essa resolução mais áspera. Foi a maneira usada pela Letícia. Sua vizinha não acatou o diálogo que tiveram, descumpriu uma solicitação verbal de Letícia, que tinha razão, e tudo deu no que deu. A segunda maneira, caso a primeira maneira não surta os efeitos desejados, seria através de vias judiciais, com advogados envolvidos, montagem de processos e a longa espera proporcionada pelo judiciário brasileiro. Na maioria das vezes, quem acaba resolvendo o problema não é o juiz, com a proclamação de sua sentença, mas sim o próprio tempo, que não raro pode ultrapassar os dez anos. E todos sabemos que, em dez anos, muita coisa acontece. Não dá para ficar esperando todo esse tempo para um sujeito chamado de juiz julgar o caso. E, a terceira maneira de se resolver um problema, da qual não faremos comentários, é "na bala". Melhor já irmos para o parágrafo seguinte.

Onde coexistem duas ou mais pessoas, dificilmente não teremos problemas, pois cada uma tem preferências, costumes e vontades próprias e raramente tudo isso, que é peculiar a cada pessoa, entra em consonância com os mesmos fatores relativos a outra pessoa, o que invarialvelmente causará um conflito. Isso é inevitável. A vida em sociedade, seja ela no cotidiano de um casal ou numa comunidade maior, implica em sucessivas pequenas renúncias em prol das outras pessoas, que também farão o mesmo beneficiando você. É uma simbiose onde no final todos saem lucrando, pois a vida em comum, se dá direitos para todos, também exige por parte de todos que cumpram com os deveres estabelecidos. Onde existem direitos invariavelmente existem deveres, e vice-versa. Foi a maneira encontrada pela sociedade para se organizar. O ser humano criou leis, normas, regulamentos, para serem por todos obedecidos, impondo deveres, justamente para preservar os direitos de cada um. Não posso deixar você mandar para dentro de minha casa uma pessoa que eu nem conheço. Já que é inevitável, quero que assine para mim um termo se responsabilizando por tudo que essa pessoa fizer, senão chamo a polícia e armo o barraco!

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