Monica Iozzi - Foto: http://monicaiozzinews.wordpress.com

Às vezes eu choro. Nunca na frente dos políticos, claro. Mas, quando sou agredida verbal ou fisicamente, fico triste por imaginar que uma pessoa que deveria estar ali para ajudar o país está fazendo justo o oposto. Quando estou na frente de um político corrupto, não encaro como uma simples matéria para o CQC. Me vejo como uma cidadã que tem a oportunidade de confrontar seus líderes e tentar mudar algo no sistema de governo atual, mas, infelizmente, as coisas já criaram raízes. A gente realmente não tem noção do que se passa por lá. O Congresso Nacional me consome demais. Não acreditava em energia negativa até pisar lá dentro. Saio de lá moída, como se tivesse feito trabalho braçal.

 

Monica Iozzi
Atriz e repórter, 30 anos, que faz entrevistas com os  políticos no Congresso Nacional, apresentadas no programa CQC, exibido pela rede Band.
Novembro 2011




Monica Iozzi trabalha para o programa CQC, atualmente fazendo matérias em Brasília, entrevistando alguns políticos no Congresso Nacional. Suas entrevistas são bem diferentes das convencionais: ela chega tocando direto na ferida, fazendo a pergunta que o político jamais gostaria que fosse feita. Muitas vezes, se a pergunta envolve algum tipo de assunto relacionado à corrupção do político, ela já vai munida das provas para fazer a pergunta. O que se vê depois disso é o político tentando fugir dela, sendo grosseiro ou se fazendo de desentendido. E ela insiste. Nesse ponto fica evidente mais uma face oculta dos políticos que a maioria da população não conhece: a cara-de-pau. Mesmo nos casos onde fica comprovada a corrupção, eles negam ou se fazem de desentendidos, como que dizendo que o assunto não é com eles. E o que acontece depois disso? Simplesmente nada! O prato mais saboreado no meio político nacional é a famosa pizza, onde tudo termina. Não adianta tentar mudar, dificilmente alguém vai conseguir, pois como a própria Monica percebeu, as coisas já criaram raízes.

Mas por que existem tantos políticos corruptos e que roubam o dinheiro que deveria ser usado em benefício da população? Não se espante com a resposta, mas é simplesmente porque aqui no Brasil isso é permitido. É permitido sim! A partir do momento em que não existem leis severas para combater a corrupção ou a partir do momento em que as leis, se existem, não tem capacidade de serem cumpridas, então tudo passa a ser permitido. É um raciocínio lógico e dedutivo, pois se não existe a proibição, logicamente existe a permissão. E os políticos sabem muito bem disso. Alguém poderia perguntar: mas e o bom senso? Será que os políticos não sabem que é errado ser corrupto e roubar? Para eles, bom senso é encher o bolso de dinheiro e errado é deixar que outro roube o dinheiro que poderia ser deles. Já que todos roubam, que seja ele, o político corrupto, o beneficiado, e não o fulano de outro partido. E tudo facilita e promove a ladroeira: imunidade parlamentar, julgamento diferenciado, ampla possibilidade de defesa e, sem contar com o apoio incondicional dos colegas parlamentares para uma absolvição, mesmo quando existem provas contundentes do crime cometido. Isso aconteceu recentemente, onde um político foi filmado recebendo propina e depois absolvido num julgamento realizado pelos seus outros colegas políticos. E qual foi o final da história? Pizza, claro!

Existe a matemática da ladroeira. Estima-se que, numa cidade pequena, do porte aproximado de dez mil habitantes, um prefeito consiga roubar num mandato de quatro anos a quantia aproximada de três milhões de reais. Precisa fazer obras, precisa construir praças, calçar ruas, melhorar a rede de saneamento e até mesmo demolir algumas obras e fazer de novo, mas precisa fazer! Dessa forma, um serviço de tantos mil reais é faturado pelo dobro do preço, ou mais. A empresa executante recebe o devido valor, no preço correto, e o restante é dividido entre os envolvidos na tramóia. No caso do Congresso Nacional, o mecanismo é diferente. Vende-se influência. Se um político conseguir que seja aprovada uma lei e essa lei beneficiar uma grande empresa, talvez reduzindo seus impostos, certamente ele também será beneficiado pela empresa. Tudo é acertado de antemão, inclusive os valores monetários envolvidos. Mas nós, pobres mortais, de nada sabemos do que acontece nesse Congresso. Cada vez mais são criados mecanismos sofisticados de desvio de dinheiro e pagamento de propinas. Quem não se lembra do mensalão? No que deu? Outra pizza, lógico. Mas o que podemos então nós, míseros contribuintes, fazer? Duas coisas: continuar pagando nossos impostos, quietinhos e obedientes e, se eles permitirem, sugerir o sabor da próxima pizza. Meus pêsames a todos nós, pois moramos no Brasil.

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