Alexandre Nero - Foto: AgNews

Já traí e fui traído muitas vezes. É terrível sempre, para qualquer um dos dois. Descobrir é muito ruim e trair também, porque tem o peso da palavra como uma coisa muito agressiva.

 

Alexandre Nero
Ator, 42 anos, que representa um personagem que foi traído por sua namorada na novela Salve Jorge, exibida pela Rede Globo.
Dezembro 2012




Quase sempre quando é abordado qualquer assunto referente a relacionamentos, a matéria "traição" frequentemente ganha destaque e logo passa a ser o tema mais relevado, tornando os outros menos significativos. Talvez porque uma traição tenha especial influência na vida de um casal, sendo capaz de dissolver até a mais estável das relações, talvez porque uma traição represente a quebra imediata de uma confiança que foi durante anos construída, é fato que esse assunto faz parte dos temores de praticamente todo casal, em qualquer tipo de relação, seja ela aberta ou não. Mesmo aqueles casais tidos como totalmente liberais, adeptos do swing e atividades afins, não toleram a traição, que também é encarada como uma quebra da confiança estabelecida. Nesses casos, o relacionamento extraconjugal é deve ser sempre consentido pelo outro cônjuge, que tem conhecimento de tudo o que se passa com seu par, isso quando não participa conjuntamente, e o fato de um dos cônjuges se relacionar com outra pessoa sem o conhecimento de seu parceiro é tido como uma traição, uma falta grave que, tal como nos outros casos, também pode levar ao fim da relação. O assunto é de tamanha relevância que, embora milhares e milhares de páginas já tenham sido escritas sobre o tema, ele sempre retorna com uma abordagem diferente e está sempre a assombrar praticamente todos os casais existentes, sejam jovens ou idosos, liberais ou ortodoxos, culturalizados ou não. Até no reino animal a traição não é tolerada por muitas espécies e existem algumas cujos membros, após se juntarem com seu par, permanecem fiéis até a morte. E é exatamente isso que toda pessoa deseja de seu consorte, fidelidade, mesmo que ela própria admita que não é fiel.

Ao adentrarmos a fundo no assunto, percebemos que a traição tem inúmeras causas, tanto como inúmeras consequências. Entre as causas comuns podem ser citados problemas no relacionamento conjugal, sejam os mais diversos possíveis, quando um dos cônjuges, ou ambos, tenta buscar alívio numa relação externa, tal como se fosse uma fuga da sua realidade familiar. Essa relação externa, justamente por na maioria das vezes ser algo ocasional, obviamente não apresentará os problemas peculiares que um casal tem na vida a dois, de certa forma naturais numa convivência cotidiana. Assim, a pessoa que trái passa a ter uma tendência a supervalorizar essa relação extraconjugal, tendo a falsa impressão de que em tudo ela é melhor do que a sua relação oficial, pois no curto tempo que passa com seu amante não há espaço para brigas nem discussões, mas muito pelo contrário, são contabilizados apenas bons momentos pois, caso assim não fosse, não haveria motivo para esse caso extraconjugal persistir. Outro motivo bastante comum para uma traição é a própria natureza do ser humano, a sua condição mais pura e desprovida de pinturas. Essa natureza faz com que cada pessoa busque, seja de maneira consciente ou não, o prazer físico, em todas as formas em que ele puder se apresentar. Assim sendo, as pessoas buscam lugares agradáveis onde possam estar, procuram alimentos saborosos, gostam de perfumes, apreciam boa música e... também gostam de sexo, e muito! E é justamente o prazer causado pelo sexo um outro grande motivo para que as traições ocorram. Mesmo que uma pessoa não apresente queixas com relação ao desempenho de seu par na cama, será sempre uma grande tentação provar o corpo de uma outra, e geralmente as pessoas sucumbem ao desejo, isto é, acabam traindo.

Sendo assim, como então conviver com o fantasma da traição, já que ninguém que esteja em uma relação consegue dele se livrar? Mesmo que exista a mais absoluta confiança entre o casal, a vida em sociedade, os próprios instintos humanos, a instabilidade emocional que ora afeta as pessoas, taxas elevadas de hormônios em circulação no organismo, até a curiosidade, tudo isso, entre tantos outros fatores, deixa margens para que acabe por existir uma desconfiança, em variados graus, dependendo do perfil psicológico de cada pessoa. A maneira para lidar com tudo isso é simplesmente cada pessoa aceitar a natureza humana, de forma crua e racional, reconhecendo em si e no seu par todas as implicações que ela pode trazer. Isso não significa aceitar a traição como algo comum e natural, mas significa ter a mente preparada para encarar com bom discernimento algum eventual transtorno que possa acontecer na vida do casal. E no caso disso se concretizar, essa mesma mente preparada saberá tomar a atitude mais coerente frente a situação, que nem sempre converge para a separação. Não há nenhuma dúvida que é uma situação muito delicada, mas o conhecimento torna-a compreensível e, dessa maneira, os caminhos para que se possa com ela lidar ficam mais claros. Para cada escolha que se faz, existe uma renúncia a ela associada. Não se pode ter tudo o que se deseja, caso contrário estaríamos no Paraíso e não no planeta Terra. A partir do momento em que foi feita a escolha de se estar em um relacionamento, a renúncia que naturalmente advém é bastante óbvia.


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