Lucas Silveira - Foto: Carol Soares

Acho que quebrar um instrumento no palco é ridículo e constrangedor, e não importa o estilo musical que a pessoa toque. Há uns quarenta anos isso é feito e há quarenta anos isso é tão rebelde quanto matar aula de educação artística. O instrumento musical é um artefato sagrado, capaz de mudar a vida de muita gente, sem falar nos que não podem ter um. Mas isso é apenas a minha opinião.

 

Lucas Silveira
Vocalista da banda Fresno, 28 anos, criticando a atitude do cantor Gusttavo Lima, que quebrou uma guitarra durante um show e jogou os pedaços na platéia, machucando uma garota.
Agosto 2012




O desabafo de Lucas Silveira pode ser definido numa única palavra: Perfeito! Sucintamente, conseguiu exprimir sua opinião e sintetizar sua indignação, a qual é compartilhada com muitas outras pessoas. Um cantor que quebra seu instrumento de trabalho, no caso uma guitarra, em cima de um palco, este que pode ser considerado seu local de trabalho e fonte de renda, fazendo de modo para que todo o público observe, é no mínimo uma atitude de revolta com sua própria profissão, uma maneira clara de dizer a todos que odeia seu trabalho e tudo o que se relacione com ele. É a revolta em seu sentido mais primitivo, é a manifestação de uma cólera até então contida e que precisou ser extravasada. Podemos afirmar que esse comportamento transmite o mesmo significado que sentiríamos se víssemos um ciclista quebrar sua bicicleta ou um jogador de futebol colocar fogo numa bola dentro de um estádio lotado. Agravante maior foi o fato de ter sido uma atitude pública, incitando nas pessoas um comportamento rebelde e agressivo. Se por um lado causa indignação, pela violência do ato de quebrar, por outro causa tristeza, especialmente naquelas pessoas que precisam de, ou gostariam de ter, uma guitarra e não têm condições de adquirir uma. Muitas vezes, as atitudes de uma pessoa exprimem mais de sua essência do que as próprias palavras que ela diz. As palavras podem ser manipuladas e proferidas de uma forma planejada, de modo a satisfazer um anseio do interlocutor, fazendo-o ouvir o que ele gostaria de ouvir, porém muitas das atitudes realizadas escapam desse controle e acabam obedecendo ao instinto, nem sempre indo ao encontro da imagem de si que alguém gostaria de transmitir para outrém.

Gusttavo Lima é um cantor jovem, vindo de uma família humilde, e que rapidamente se tornou milionário. Como todo jovem pós-adolescente, passa por suas fases de desenvolvimento psicológico, mostrando variados tipos de comportamento e atitudes, que podem ir revelando em qual fase está. Entre muitas, podemos dizer que geralmente existe a fase da auto-afirmação, onde o jovem precisa consolidar-se no meio em que vive, mostrar para os outros e principalmente para si mesmo que existe e que é um ser capaz, que tem valor e que esse valor deve ser admitido pelos outros. É a fase onde o jovem busca reconhecimento e precisa suprir a necessidade de mostrar suas qualidades, garantindo seu espaço no meio onde vive. Vindo antes ou depois desta, temos a fase da rebeldia, um pouco mais delicada tanto para o jovem como para aqueles que com ele convivem. Nessa fase, precisa o indivíduo sentir-se livre, desamarrado de quaisquer laços que possam atá-lo a coisas ou obrigações. Embora ainda cumpra com algumas formalidades que lhe são impostas, precisa sentir-se no direito e com o poder de rejeitá-las, se assim desejar. E a maneira que comumente a maioria dos jovens encontra de sentir essa liberdade é adotando um comportamento rebelde, indo de encontro ao que é tido como um comportamento normal e de acordo com as regras sociais. Em seu anseio por liberdade, que se traduz por romper com as regras e paradigmas de seu meio, fazendo com que se sinta livre, muitas vezes o jovem busca essa sensação em atitudes extremas, em seus mais variados níveis, que vão desde matar uma aula de educação artística até usar drogas ou mesmo quebrar uma guitarra no palco durante um show.

Desamor a sua profissão ou pura rebeldia? O que norteou o comportamento de Gusttavo Lima? Estaria ele ainda em processo de amadurecimento, passando por suas fases de desenvolvimento pós-adolescencia ou encontrou no ato de quebrar uma guitarra uma maneira de mostrar aos outros que é um ser que não mais depende dos palcos para sobreviver? Embora sua atitude possa parecer viril e ousada para algumas pessoas, para a grande maioria foi uma atitude reprovável e incoerente. Talvez hoje já esteja o cantor arrependido pelo seu ato, talvez num próximo show ele repita o que fez. Não foi o primeiro e nem será o último a fazer isso. Hão de aparecer dezenas de outros cantores, jovens ou não, que quebrarão suas guitarras nos palcos, arrancando elogios de uns e indigação de outros. Os motivos poderão ser os mais variados possíveis, até mesmo uma maneira de aparecerem em foco, ocupando as lacunas da mídia por alguns dias. Se vale o dito popular para que mesmo falando mal, que falem de alguém, então não será por falta de atitudes como essa que muitos artistas serão comentados e terão garantido por alguns dias seu espaço na mídia. Todo artista precisa se manter no foco, precisa ser comentado. Isso impulsiona sua tragetória, fomenta sua carreira, arrebata seus fãs e, invariavelmente, engorda sua conta bancária. Talvez não seja nenhum desamor a sua profissão nem nenhum tipo de comportamento rebelde de um pós-adolescente. Talvez Gusttavo Lima saiba muito bem o que fez e está agora colhendo os frutos de sua ação. Poderia quem escreve essas linhas estar comentando sobre algum problema político ou ambiental, mas não está. Pelo contrário, está escrevendo sobre Gusttavo Lima.


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