Eu tenho certeza que ela ficaria emocionada se nós fizéssemos as pazes, mas realmente, eu tenho uma verdadeira falha como ser humano, isto é, eu acho muito difícil perdoar as pessoas. Eu aceito isso. Isso é uma falha em meu caráter que impede que eu seja o ser humano perfeito. É uma coisa com a qual eu tenho que conviver. Tenho percebido que é muito difícil, especialmente se eu fui processado. Eu não perdôo.

 

Noel Gallagher
Cantor, ex-vocalista da banda Oasis, 45 anos, sobre como sua mãe ficaria feliz se fizesse as pazes com seu irmão, Liam Gallagher, que o processou por conta de suas declarações após o fim da banda.
Outubro 2012

Noel Gallagher - Foto: PacificCoastNews.com



Ninguém deve sair perdoando todo mundo por aí senão a vida nesse planeta se transformará num verdadeiro caos, onde praticamente todas as pessoas iriam cometer todos os delitos que desejassem, pois teriam consciência que seriam perdoadas depois e nenhuma punição ao delito que cometeram seria imposta. O perdão é considerado por muitos como sendo um ato de dignidade humana, mas jamais deve ser concedido para todos, indiscriminadamente. Assistimos todos os dias a uma enorme gama de crimes, que são cometidos por gente de toda espécie que, mesmo sabendo que existe uma certa punição, ainda assim cometem esses crimes e não se arrependem. O perdão simplesmente acabaria com essa punição e funcionaria como um estímulo para que cada vez mais pessoas cometam todos os crimes e infrações que desejarem. São as punições severas que impedem que as pessoas cometam quaisquer tipos de atos que venham a prejudicar, de alguma forma, as outras pessoas. É exatamente o medo de ser punido que faz com que as pessoas pensem duas vezes antes de tomar uma atitude considerada ilícita ou desagradável para outrém e, se passa a existir o perdão, esse medo deixa de existir e o caminho se torna livre para que todos façam tudo o que bem entenderem, seja certo ou errado. Se alguém comete um delito, deve obrigatoriamente ser punido, sofrer as dores e consequências da pena imposta para que jamais volte a repetir o crime cometido. É um sistema de crime e castigo que, quando bem aplicado, funciona muito bem, proporcionando um aprendizado ao infrator. Quando a pena aplicada é branda ou quando o perdão é concedido, o sistema deixa de funcionar e certamente o infrator repetirá o crime que cometeu.

Muitas religiões apregoam que deve-se sempre perdoar, pois assim como Deus nos perdoa, devemos também perdoar nosso próximo, mas se bem observarmos, perceberemos que esse pensamento está totalmente equivocado, onde se pega um raciocínio correto e tenta-se distorce-lo para que tenha um outro significado. E o pior de tudo é que muitas pessoas acabam acreditando nessas idéias distorcidas e, não raro, colocando-as em prática. Em lugar nenhum está escrito que Deus sempre perdoará e que devemos sempre fazer o mesmo. Acreditar nisso é imputar a Deus um caráter fraco e que não condiz com sua natureza. O temor a Deus é sempre mencionado e estimulado em praticamente todas as religiões e, raciocinando com um pouco de clareza, perceberemos que se for verdade que Deus sempre perdoará, para que então existir o temor a Deus? Na verdade Deus perdoa somente aqueles que se mostrarem profundamente arrependidos por causa do que cometeram de errado. Essa é a verdade e a interpretação correta do perdão divino. Se não houver arrependimento, não haverá perdão. E Deus tem os meios e a percepção necessária para saber se alguém está ou não profundamente arrependido do que fez de errado e, sendo assim, saberá perdoar quando julgar que alguém realmente merece o perdão. Por outro lado, é perfeitamente compreensível que nós, seres humanos, não sejamos capazes de perdoar, pois não temos meios de saber se alguém está ou não profundamente arrependido do que fez e apto para receber o perdão. Palavras e pedidos de desculpa não garantem que alguém se arrependeu de verdade e não se fazem suficientes para que esse alguém receba o perdão.

Dentro de todo esse contexto, deve então o ser humano nunca perdoar, visto que não tem meios suficientes para saber se quem clama pelo perdão está ou não verdadeiramente arrependido? Numa análise fria e rigorosa do fato, a resposta seria "sim". Se somente Deus tem como perceber se o arrependimento está verdadeiramente presente ou não, somente Ele deve ter essa capacidade de perdoar, não o ser humano. O perdão deve ser concedido somente a quem realmente o merece e faz jus a recebe-lo, não indiscriminadamente a tudo e a todos, como ainda pregam várias religiões e acreditam várias pessoas. No caso do ser humano, mesmo não tendo ele condições de saber se a pessoa a ser perdoada está ou não realmente arrependida, ainda assim o perdão pode ser concedido, mas como um mero ato de bondade, de compaixão, nada mais além disso. O perdão, em sua verdadeira essência, vinculado ao arrependimento extremo de quem o necessita, não tem condições de ser concedido por nenhuma pessoa, visto que a capacidade de perceber de modo certo esse arrependimento não pertence ao ser humano. O ato de não poder perdoar ou não querer perdoar jamais pode ser considerado um defeito de caráter ou uma má qualidade de alguém. Muito pelo contrário, deve ser considerado como uma precisa assimilação do verdadeiro sentido do perdão e, ao mesmo tempo, uma severo inconformismo com relação a tudo o que é errado e criminoso. Enquanto que o ato de perdoar implica numa velada aceitação de que é permitido transgredir as regras e cometer delitos, não perdoar acaba por revelar uma grande rigorosidade no caráter e um severo inconformismo com as coisas erradas. Noel Gallagher está absolutamente correto.


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