Nunca pensei em desistir, mas a tristeza sempre bate. É muito difícil você receber um não. Eu venho fazendo testes para cinema, mas, às vezes não é o meu perfil, às vezes é porque não combina com os atores que vão fazer a família ou algo assim. São detalhezinhos que fazem você não fazer aquele trabalho. Eu sofro, passo o dia chorando e pensando no quanto me dediquei. Mas eu entendo que faz parte e que os "nãos" são importantes para o meu crescimento. O que é para ser meu está reservado.

 

Paloma Bernardi
Atriz, 27 anos, que atualmente faz parte do elenco da novela Salve Jorge, exibida pela Rede Globo, desabafando sobre as dificuldades que enfrenta para conseguir papéis no cinema.
Novembro 2012

Paloma Bernardi - Foto: http://istoegente.terra.com.br



O desabafo de Paloma Bernardi reflete a realidade de milhares de pessoas mundo afora. A não ser no caso de algumas poucas pessoas privilegiadas que nasceram em berço de ouro, herdeiras de fortunas provenientes de seus pais, todas as outras necessitam de trabalho para sobreviverem, pois é através dele que obterão o dinheiro para poderem tocar suas vidas. E, assim sendo, com poucas exceções relacionadas aos casos onde a pessoa passa a trabalhar em empresas ou negócios da própria família, não necessitando nesse caso de ter que procurar por um emprego, todas as outras necessitam de literalmente caçar uma vaga de emprego e, uma vez tendo encontrado alguma oportunidade, batalhar para que consiga deter para si a chance encontrada. E não é nada fácil conseguir alguma colocação no mercado de trabalho, mesmo para pessoas com boa capacitação, pois a concorrência é acirrada e nem sempre são eleitos os melhores candidatos. Muitas vezes pesam outros fatores, diferentes daqueles que deveriam ser levados em conta objetivando o melhor desempenho na função ofertada. A pessoa que detém o poder de escolher quem deverá, ou não, ocupar uma vaga de emprego muitas vezes possui parâmetros subjetivos para realizar sua escolha, que muito podem se distanciar daqueles relacionados com o cargo em questão. Uma pessoa formada em Administração de Empresas pode muito bem perder a disputa para gerente de uma loja de departamentos se sua concorrente, sem formação nenhuma, tiver algum tipo de parentesco com o responsável pela seleção. Para tanto, nos processos seletivos onde se deseja privilegiar alguém, geralmente são consideradas entrevistas pessoais como uma das maneiras válidas para que se realize a seleção. Nessas entrevistas, pode-se atribuir qualquer nota para qualquer candidato e é muito difícil contestar seu resultado, pois não existem critérios estabelecidos para que essa nota seja dada, valendo única e exclusivamente a subjetividade do entrevistador.

Num ritmo normal, adotado pela grande maioria das pessoas, tudo começa com a escolha da profissão ou área na qual se deseja trabalhar. Essa escolha é feita de acordo com as aptidões da pessoa ou mesmo pela necessidade. Para muitos, não é fácil escolher. Um grande número de pessoas se arrepende e, não raro, troca de área de atuação várias vezes. Uma vez escolhido o ramo desejado, começa uma verdadeira batalha rumo ao ingresso no mercado de trabalho. O segundo round tem a ver com a capacitação da pessoa para que possa exercer a atividade escolhida. É necessário um aprendizado, pois ninguém nasce sabendo fazer nada. Esse aprendizado geralmente é obtido através de cursos, que podem ser realizados de variadas maneiras, seja em instituições governamentais ou particulares. Se o ramo escolhido envolver alguma profissão de nível superior, esse aprendizado pode custar caro. Não é fácil ingressar em várias faculdades, pois nesses casos, ser aprovado no teste vestibular exige vários anos de estudo e dedicação. Sem nenhum tipo de exagero, é absolutamente necessário um devotamento implacável para que se consiga ingressar nas faculdades mais concorridas do país. E isso é apenas o primeiro passo, pois depois disso seguem-se vários anos de estudos para que se possa concluir a formação necessária para ingresso no mercado de trabalho. Terminada a fase de formação, começa o terceiro round da contenda, que é relacionado com a busca por alguma oportunidade, que conforme o ramo escolhido, pode ser bastante escassa. O quarto round é o mais difícil, onde boa parte do fôlego do lutador já se foi. É nessa fase que ele deve lutar ferrenhamente para conseguir para si o tão almejado trabalho. E nessa fase é que são ouvidos os muitos "nãos", que fazem parte do cotidiano até das pessoas com o mais alto nível de capacitação que se pode ter para desempenhar uma função.

Muitos dos maiores escritores do planeta já foram, em seu início de carreira, rejeitados por várias editoras para as quais apresentaram suas obras e, acredite, foram ridicularizados. Quadros de Van Gogh, hoje considerado um verdadeiro mestre das telas, que valem milhões de dólares, já foram por ele próprio, que morreu na mais absoluta penúria, trocados por míseras garrafas de Absinto, bebida da qual era dependente. A própria personificação do gênio, o cientista Albert Einstein, criador da Teoria da Relatividade, já foi considerado um retardado mental por seus professores e tido como um "caso perdido". Não faltam exemplos de que muitos dos "nãos" recebidos pelas pessoas de nada exprimem a verdadeira realidade dessas pessoas. O fato de se receber um "não" jamais pode ser interpretado exclusivamente como sendo uma falta de potencial ou aptidão para uma função ou cargo desejado. Um "não" pode muito bem significar que quem o proferiu não tem capacidade suficiente para enxergar e perceber o que está acima dele. Somente enxerga e consegue discernir sobre aquilo que está no mesmo nível ou abaixo de sua capacidade intelectual. Qualquer coisa acima dessa sua capacidade de entendimento é vista como ameaça e a maneira mais prática de se livrar dessa ameaça é proferindo um "não". Nenhum chefe de seção escolherá um subordinado com capacidades superiores às que ele possui, pois correrá o risco dessa pessoa, por conta de seu talento, passar a ocupar o seu cargo de chefia. E mesmo que isso não ocorra, assim que perceber o progresso de algum subordinado ou de alguma forma sentir seu cargo ameaçado por ele, logo tratará de demiti-lo, inventando alguma razão sem fundamento ou mesmo sumariamente, sem apresentar nenhum motivo. Um "não" deve ser encarado como um fiel espelho que não apresenta distorções: ou servirá para que nos conscientizemos de nossos defeitos, ou servirá para que reafirmemos nossa competência e superioridade mediante quem o proferiu.


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