Só se fala nisso. Só se fala em magreza, em idade, em plástica. Ah, isso cansa, isso é muito chato. Nada mais objeto do que isso, de você ter que obedecer a um padrão: você não pode engordar, você não pode envelhecer. Isso eu acho muito chato, muito limitador no que é ser uma mulher. A gente vai envelhecer! Normal, ainda bem. Eu tenho medo de perder a saúde, de perder as funções, de poder ir e vir. Essas coisas realmente a idade limita, a gente vai perder. São perdas que a gente vai tendo durante a vida.

 

Patrícia Pillar
Atriz, 48 anos, vilã da nova novela da Rede Globo, Lado a Lado, desabafando sobre as cobranças sofridas pelas mulheres.
Setembro 2012

Patrícia Pillar - Foto: AgNews



Nunca a humanidade foi tão competitiva como é atualmente. Por conta do crescente número de habitantes do planeta, fato especialmente devido às culturas mais pobres, e ainda levando-se em conta a boa longevidade que está sendo alcançada pelas pessoas, nesse caso entre as culturas mais abastadas, nota-se que estão existindo mais pessoas e menos lugares onde todo esse povo possa se acomodar. Por conta disso, estão sendo criados arranha-céus cada vez mais altos e dezenas de modernas construções mar adentro. O problema da falta de espaço está fazendo os homens recorrerem cada vez mais a projetos audaciosos que visam compensar essa deficiência, seja invadindo espaços antes inabitados, seja adapatando os espaços atuais em lugares planejados de forma a comportar o maior número de pessoas possível no menor ambiente físico do qual se possa dispor. Infelizmente, juntamente com o aumento do número de habitantes do planeta não crescem, no mesmo ritmo, as oportunidades de trabalho para esses habitantes, fator fundamental para garantir o seu sustento. As boas oportunidades de trabalho, quando existem, continuam escassas, sempre disputadas ferozmente por milhares de candidatos ávidos por conseguirem seu lugar ao sol. Nesse contexto, de uma grande massa populacional disputando com unhas e dentes todas as poucas oportunidades que possam surgir, fica acirrada a concorrência, que não raro está ultrapassando os limites do mero "saber fazer" para optar por este ou aquele candidato a uma vaga de emprego. Não basta mais saber desempenhar uma função com experiência e conhecimento. Se isso era garantia para se conseguir um emprego décadas atrás, hoje as coisas são bem diferentes. Conhecimento e experiência são qualidades que se tornaram banais, pois a grande maioria dos candidatos que disputam uma vaga de emprego qualquer possuem tais requisitos. O desempate está a se dar em outros patamares, geralmente sem relação direta com o emprego desejado.

Tomando-se como base todo o exposto, é natural que passe a ser considerado todo e qualquer atributo que possa pesar a favor de um candidato quando de uma seletiva visando um emprego. Inevitavelmente, a boa aparência entra em voga mais uma vez e acaba sendo um fator crucial na escolha deste ou aquele candidato, muitas vezes ganhando até uma maior importância do que as qualidades diretamente ligadas ao trabalho que será executado. É nesse contexto que está estruturada toda a sociedade moderna. É nessa teia, onde estão emaranhadas a necessidade de trabalhar e a acirrada concorrência por uma vaga de emprego, que vivem a quase totalidade dos habitantes da Terra. E é baseada nessa teia que a sociedade vai gradualmente se alterando, modificando-se pouco a pouco, mas de maneira perene, assimilando novos conceitos, aceitando novas exigências e impondo a todos um novo padrão de comportamento e conduta. Não há espaço para a rebeldia, pois tal como uma grande onda, vem e arrasta a todos. Se o ser humano deseja sobreviver, deve então render-se ao padrão de vida que lhe é imposto e tentar conseguir um emprego. E se deseja um bom emprego, deve preocupar-se com seus atributos físicos, pois agora sabe que eles farão a diferença quando da disputa por uma colocação. Isso explica toda a indignação de Patrícia Pillar em seu desabafo. Realmente, toda essa cobrança e esse culto exagerado ao corpo cansa, mas é reflexo de uma organização social marcada por um excesso de pessoas e escassez de oportunidades para a sua sobrevivência, ou mesmo para um padrão de vida minimamente aprazível. Para a grande massa, não há outra escolha, não existe uma segunda opção. Todos somos engolidos pelo sistema, somos dele escravos e não temos a quem recorrer. É como se estivéssemos numa praia, prestes a ser engolida pelo oceano, e houvesse um único navio de lá partindo. Ou entramos dentro dele ou morreremos afogados.

Como em toda regra, também nesse caso existem exceções. Encontramos raras e bem-aventuradas pessoas que estão fora desse sistema, que somente consegue engolir as grandes massas, que não tiveram a necessária sorte que abençoou essas poucas pessoas. São pessoas que acumularam grandes fortunas em muito pouco tempo, devido ao seu tipo de trabalho ou o fizeram valendo-se de meios considerados ilícitos. Exemplificando, podemos citar alguns artistas e políticos. Os primeiros podem ganhar milhões e milhões participando apenas de um único filme de sucesso. É dinheiro suficiente para garantir o sustento e a boa vida de várias gerações de descendentes. Os segundos, igualmente podem acumular outros milhões e mais milhões, como é muito comum de acontecer no Brasil. Basta que saibam se valer, com a maestria necessária, das leis brasileiras para conseguirem desviar dos cofres públicos todo o dinheiro que quiserem. Também nesse caso, várias gerações de descendentes podem não dar conta de gastar todo o dinheiro obtido, que pode alcançar cifras astronômicas. Existe também o caso daquelas pessoas que, podendo não possuir a mínima capacidade de fazer alguma coisa, simplesmente herdam de sua família rios de dinheiro que lhes garantirão uma existência tranquila e abastada, sem nenhuma necessidade de passarem por todas agruras pelas quais passa a grande massa, na luta pela sobrevivência. Com trabalho ou não, com ou sem dinheiro, tendo ou não tendo um corpo bonito, a verdade é que num curto espaço de tempo todos os habitantes atuais da Terra estarão literalmente debaixo da terra, no mesmo lugar e na mesma situação, com seus corpos apodrecidos sendo comidos pelos vermes. Esse é absolutamente o único fato no qual podemos piamente acreditar, tido como certo, verdadeiro e inevitável. Some à data de hoje alguns cento e poucos anos e tenha a certeza que nem os bebês que hoje nasceram estarão vivos para discordar desse fato. Mas o sistema provavelmente sobreviverá e continuará dominando a todos.


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