Amores, posso desabafar com vocês? Eu gostaria de fazer um pedido de coração. E eu sei que quem me ama vai respeitar. Eu gostaria de preservar o único caminho que ainda é meu. Gostaria de ficar tranquila em casa. Tá virando um transtorno para entrar e sair de casa. E vocês me conhecem, eu não sei falar não. Ontem eu neguei e me senti muito mal. Por isso, estou vindo aqui pedir para vocês pra gente evitar esse tipo de situação. Às vezes eu nem saio de casa porque sei que tem trinta pessoas lá na porta. Muito obrigada, eu sei que vocês me entendem. Muito, muito obrigada! Eu fico muito mal de ter que pedir isso, mas é o único jeito.

 

Sophia Abrahão
Atriz e cantora, 21 anos, ex-integrante do elenco da novela Rebelde, que foi exibida pela Rede Record, desabafando sobre a falta de privacidade que enfrenta.
Dezembro 2012

Sophia Abrahão - Foto: AgNews



Já diz o escritor Eduardo Esber que gosta muito letrinhas n, m, a, o, i e t, especialmente quando elas se juntam para formar a palavra "anonimato". Diz ainda que isso tem relação direta com outra palavrinha importante, que é "sossego". Completa afirmando que depois que essas duas palavras se conheceram, se tornaram inseparáveis. Não podemos negar que ele está absolutamente certo, pois sem anonimato não existe sossego e esse mesmo sossego é tudo que quem não tem anonimato deseja. Infelizmente não é o caso da Sophia Abrahão que, embora bastante jovem, já é conhecida pelos quatros cantos do país. Anonimato é uma palavra que não existe em seu cotidiano e, pelo visto, está longe de dar algum sinal de vida em seu dicionário. Para chegar ou sair de casa, precisa impreterivelmente passar por uma legião de fãs que fazem plantão na entrada de sua residência. Não é somente passar por eles, é também se esquivar de pedidos de autógrafos, fotos, perguntas, lembranças e todas as coisas mais que um fã apaixonado pode pedir. Se vai para qualquer lugar que seja, já logo começa a ser observada, fotografada, tudo nos mínimos detalhes. Se alguém percebe uma única unha lascada, já logo a devida foto estará nas principais mídias de fofocas do país, quiçá com a manchete de que ela anda tomando antidepressivos porque não para de roer as unhas por conta do término de seu relacionamento. E olhe que o relacionamento pode nem existir, mas as manchetes sensacionalistas conseguem criar tudo o que desejam. E pior, as pessoas sensacionalistas que consomem essas manchetes conseguem acreditar em tudo o que lêem. Se existe o produto e se existe o freguês, infelizmente não há muito o que fazer.

Existem vários artistas que gostam de estarem cercados por fãs, de serem reconhecidos nas ruas e que nunca se cansam de posarem para fotos e darem declarações, mas a grande maioria prefere um estilo de vida mais reservado, mas que dependendo do grau de famosidade da pessoa é algo praticamente impossível. Alguns chegam a se mudarem de seu país de origem, indo para alguma longíqua cidade onde não sejam reconhecidos e possam viver normalmente, como meros anônimos que têm o direito de ir fazer compras num supermercado e não ficar sendo observados a todo segundo, a todo instante. Na contramão dos fatos, existem ainda aqueles anônimos que sonham com a fama, que sonham em serem reconhecidos nas ruas, que sonham mais ainda com flashes e holofotes apontados para si, a todo momento. Pobres sonhadores, pois não conhecem a realidade cruel da falta de privacidade. No início até pode ser interessante, diferente, uma novidade, mas passada essa fase logo vem a necessidade do sossego, do silêncio, de se estar só, enfim, de não ser vigiado a todo momento. E quando essa necessidade não pode ser suprida, também vem o desespero, a frustração. Exemplos de pessoas que fazem de tudo para aparecer e serem notadas é que não faltam. Caso conhecido na mídia nacional é de uma jovem que, da noite para o dia, num mero acidente de percurso, tornou-se conhecida por ter sido ridicularizada dentro da faculdade onde estudava. Daí para diante abraçou uma verdadeira batalha para sempre estar aparecendo na mídia, de todas as formas que conseguir. Faz tudo o que pode por um flash, é capaz de fazer o inimaginável por alguns segundos diante das câmeras. Bem, o que seria do verde se não fosse o vermelho, não é mesmo?

Dentro de todo esse contexto, foi desenvolvida pelo homem a arte da invisibilidade, a técnica de se estar no meio de uma multidão e não ser notado, de forma alguma. Isso é particularmente utilizado por membros de serviços secretos e de espionagem, que precisam estar em locais movimentados, repletos de pessoas, e não terem sua presença percebida, mesmo tendo que interagir com essas pessoas. Nesse caso em especial, o melhor disfarce é justamente não usar disfarce, ou seja, vestir-se e comportar-se exatamente como fazem as pessoas ao redor, tornando-se na aparência como se fosse apenas mais um grão de areia dentre os tantos outros existentes na praia, o que poderá passar desapercebido mesmo para um observador extremamente atento e minucioso. E assim a vida vai nos apresentando uma extrema variedade de seres humanos, de todas as cores e sabores. Enquanto umas lutam desesperadamente para aparecer e serem notadas, outros desenvolvem avançadas técnicas de invisibilidade para justamente não serem notados. Enquanto umas exigem a luz dos flashes e holofotes para si, outros preferem o sossego e a paz que a penumbra proporciona. Tal como acontece no magnetismo, sempre existirão dois polos, para tudo e para todos na vida. Podem até inventar uma máquina que faça as pessoas sentir muita dor, sempre haverá aqueles que irão gostar e aqueles que não gostarão. Na humanidade não existe unanimidade, essa é a grande verdade. Imagine a mais abominável das coisas que conseguir e saiba que, se institucionalizada, haverá milhares de pessoas dispostas a abraçar a causa. O ser humano pode ser a melhor criatura do universo, mas também a pior.


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